O início do fim (ou o começo da catástrofe)
Desde o primeiro capítulo, o remake já dava sinais de que o navio estava afundando — e sem sequer ter deixado o porto. Comecemos pela atuação de Bella Campos, que conseguiu a proeza de transformar Maria de Fátima — uma das vilãs mais icônicas da televisão — em uma personagem tão insossa quanto água de salsicha. Sem expressão, sem emoção e com um exagero teatral que faria até um ator de novela mexicana corar.
A novela insistia, capítulo após capítulo, em lembrar o público da “chegada triunfal” de Odete Roitman ao Brasil, como se fosse a segunda vinda de Cristo. A expectativa era tanta que, quando ela finalmente apareceu, o público já estava cansado de ouvir o nome — e quase torcendo para que ela voltasse pro exterior.
E, claro, tivemos o show de lógica invertida: Maria de Fátima vendendo uma casa a preço de banana e, magicamente, se hospedando no Copacabana Palace como se tivesse ganhado na Mega-Sena. Qualquer carioca que já tentou pagar um café ali sabe que uma diária custa mais que um carro usado — mas tudo bem, a verossimilhança ficou em casa.
Pra completar, tivemos Leonardo sendo arremessado para dentro do quintal de Nice (porque, aparentemente, gravidade e física não existem no universo de Manuela Dias), entrando em coma e ainda sobrevivendo sem cuidados médicos. Nem Grey’s Anatomy explicaria esse milagre.
O grande final (ou a cereja azeda do bolo)
E então chegou o final. Aquele momento em que o público esperava redenção… e recebeu uma aula de como não encerrar uma novela.
Manuela Dias conseguiu a proeza de transformar o último capítulo em um festival de decepções. O assassino de Odete Roitman? Marcos Aurélio. Sim, o mesmo nome que o público já suspeitava desde o capítulo três. Foi como assistir a um suspense em que o mordomo realmente é o culpado — e ainda confessar com PowerPoint.
Ah, e os intervalos! Foram tantos comerciais que, de 51 minutos de novela, 25 foram dedicados a vender sabão em pó, carro, perfume e o que mais coubesse. A trama virou um telejornal de propagandas interrompido por alguns minutos de ficção.
Enquanto isso, a protagonista Raquel — aquela que deveria carregar a novela — foi completamente apagada, como se tivesse tirado férias sem aviso. Já Poliana, a eterna figurante, finalmente brilhou... por motivos que ninguém entendeu.
Mas nada, absolutamente nada, supera o golpe final: Odete Roitman não morreu. Sim, você leu certo. A mulher levou um tiro no peito, sangrou feito personagem de Tarantino, foi colocada em um saco, levada numa ambulância — e, aparentemente, ressuscitou no caminho. Nem Jesus conseguiu um retorno tão cinematográfico.
A explicação? Nenhuma. O roteiro simplesmente decidiu que era conveniente. A morte mais icônica da TV brasileira virou um truque de ilusionismo barato. E o público, claro, ficou com cara de trouxa.
Epílogo: o pós-desastre
No fim, Vale Tudo virou um estudo de caso sobre como não se faz um remake. Manuela Dias conseguiu o impossível: destruir uma obra-prima com a confiança de quem acredita estar reinventando a roda — mas entrega um pneu furado.
Se a Globo tiver juízo, arquiva essa versão no mesmo porão onde guardam roteiros de novelas que nunca deveriam ter saído do papel. E, por favor, Manuela, descansa a caneta. O público agradece.
